29 de junho de 2014

Garage Beauvalet

O edifício da “Agence Générale d’Automobiles”, mais conhecida por “Garage Beauvalet”, e pertença da firma “A. Beauvalet & Cta., Engenheiros”, foi inaugurado em Março de 1906, na praça dos Restauradores em Lisboa.

Segundo José Carlos Barros Rodrigues no livro “O Automóvel em Portugal - 100 anos de história” …
“Em 1899, a Empreza Industrial Portugueza dirigida por Fernando Baerlein, convidou um engenheiro francês, Albert Beauvalet, para dirigir a concepção e o processo de produção de um automóvel nacional. … Quanto a Beauvalet fixar-se-ia definitivamente no nosso país, garantindo nessa mesma altura a representação da Peugeot.”

Umas fontes afirmam que a experiência da EIP não teve sucesso (pelo menos conhecido), outras fontes permitem concluir que o carro foi construído e chegou a rodar. O problema é que a indústria portuguesa não tinha máquinas-ferramentas nem operários especializados para prosseguir o projecto. Provavelmente também faltou o necessário financiamento.

O Palácio Castelo-Melhor, localizado na Praça dos Restauradores, na fase anterior às obras introduzidas pelo Marquês da Foz, possuía o muro, visível à esquerda da foto seguinte, e que dava acesso aos jardins, onde se instalou o Circo Recreios Whyttoine. Mais tarde, no início do século XX, já tinha sido acrescentado um piso (2ª foto).

No edifício das antigas cocheiras, visível na foto anterior, ainda chegou a funcionar entre 27 de Janeiro de 1889 e 29 de Dezembro de 1891, o  “Grande Museu Universal Artistico Historico e Oleopatico”. No ano de 1890, chegou a chamar-se de “Grandiosa Galeria Universal Parisiense”, tendo, ainda no final do mesmo ano, voltado á antiga designação retirado o “Oleopatico”.

                            27 de Janeiro de 1889                                                             29 de Dezembro de 1891

      

Mais tarde, em 1902 as antigas cocheiras deste palácio seriam alugadas e transformadas na “Garage Beauvalet”. Parte do rés-do-chão seria cedido a um "Music-Hall", mais ou menos improvisado e que seria o primeiro de Lisboa.

1904

  

1905

 

Em Março de 1906 seria inaugurado um novo edifício no mesmo local, destinado à venda e reparação de automóveis importados pela “Albert Beauvalet & Cª”. À inauguração estiveram presentes o Rei D. Carlos, e Armand Peugeot, fundador da marca «Peugeot» e representada por Albert Beauvalet.

Garage da “Albert Beauvalet & Cª” à esquerda na foto

 

«Os srs.Albert Beauvalet & Ctª acabam de inaugurar a sua nova garage no terrasse do Palacio Foz, sito na Praça dos Restauradores, um dos pontos mais centraes de Lisboa.
Foi por esta occasião, Beauvalet, alvo d'uma justíssima manifestação de apreço e sympathia, por parte de todos quanto em Portugal se interessam pelo automobilismo e que viram n'aquella grandiosa installação, o quanto vale a iniciativa e persistencia d'um verdadeiro homem de trabalho.
Desde o Augusto Chefe da nação portugueza ao humilde chauffeur, todos quiseram n'essa ocasião manifestar o seu applauso ao grande emprehendedor. El-Rei dignando-se visitar e elogiar a sumptuosa garage de Albert Beauvalet, deu um nobre exemplo de justiceiro e do apreço que liga a todos quanto se distinguem pelo trabalho. O representante da França, patria de Beauvalet, honrou tambem a festa com a sua presença e teve palavras de incitamento e louvor para galardoar o  seu compatriota.

Uma das demonstrações que mais deveria ter calado no animo do sr. Beauvalet, foi a vinda expressa a Lisboa de mr. Armand Peugeot, hoje representante em chefe da prestigiosa fabrica conhecida pelo seu nome, e patriarcha da industria do automovel. A casa Peugeot, quiz assim distinguir o seu representante em Portugal e mr. Armand Peugeot, que na sua visita era acompanhado de sua gentilissima filha, levará para França a convicção de qua a sua marca de automoveis está perfeitamente cotada no nosso paiz.

A recpeção que os srs. Albert Beauvalet & Ct.ª prepararam aos seus convidados foi verdadeiramente fidalga e as honras da casa gentilmente prestadas por madame Beauvalet e seu esposo e pelo nosso amigo José Vicente Gomes Cardoso.
Os brindes, ao champagne, eram terminados ao som dos hymnos portuguez e francez e da festa compartilhou tambem todo o innumero pessoal da garage, amigos dedicados dos seus directores.

Um dos brindes que mais se nos tornou significativo foi o do sr. Beauvalet aos seus operarios, frisando que todos eram portuguezes e protestando a sua admiração pelo muito que o teem ajudado.» in: jornal: “Tiro e Sport”

Albert Beauvalet em Peniche em Setembro de 1908, num Lion Peugeot Voiturette de 1907.

Postal publicitário

Em Junho de 1909 o stand de Albert Beauvalet seria transferido para uma das lojas do Avenida-Palace Hotel, também na Praça dos Restauradores”. Nas suas instalações instalar-se-ia o “Recreios Music-Hall” que a revista “Serões” noticiava, em Dezembro de 1909, da seguinte forma:

 

Em 1914 seria construído, no seu lugar, o “Eden Teatro

O novo stand, no edifício do “Avenida Palace Hotel

Anúncio de 1928

E por ocasião da “Rampa da Ponte Nova à Cruz das Oliveiras” outro anúncio em Março de 1910

Lembro que Albert Beauvalet teve um papel pioneiro na introdução dos transportes de passageiros em automóveis. Duas marcas - e, consequentemente - dois importadores, destacaram-se no apoio à divulgação dos transportes utilizando automóveis: a «Peugeot», com “A.Beauvalet & Cta., Engenheiros” e a «De Dion Bouton», com a Sociedade Portuguesa de Automóveis. O seu papel não se limitou ao de um revendedor: estudaram as melhores propostas sob o ponto de vista mecânico (número de cilindros e potência) em conjunto com a capacidade instalada dos veículos e fizeram inúmeros testes práticos, medindo consumos e velocidades. Na realidade, neste campo, foram fundamentais para ajudar os empresários a decidir, efectuando trabalho que, em tese, teria de ser desenvolvido pelos últimos.

“Companhia Portugueza de Transportes em Automoveis” em 1903

Na foto seguinte um carro de transporte colectivo, numa saída de «experiência» da Auto-Palace já propriedade da “The Anglo Portuguese Motor & Machinery Company Limited” sucessora da SPA. No carro pode-se ler: “Passageiros, Bagagens e Mercadorias”.

Já em 1913 a representação da marca de automóveis «Peugeot» tinha passado para a firma “A. Contreras & Cª, Lda.”, com stand na Avenida da Liberdade, em Lisboa.


Já agora, em 1926 …

Nota. Muito agradeço a colaboração do sr. Pedro Ferreira para a elaboração deste artigo

fotos in: Arquivo Municipal de Lisboa, Hemeroteca Digital

27 de junho de 2014

Museu Nacional dos Coches

O “Museu dos Coches Reais” foi inaugurado a 23 de Maio de 1905, por Sua Majestade a Rainha Senhora Dona Amélia.

“Museu dos Coches Reais” no início do século XX

                              Auto da inauguração                                                                Catálogo de 1923

    

Em 1726, o rei D. João V compra a D. João da Silveira Telo e Meneses, 3º Conde de Aveiras, a "Quinta de Baixo", situada junto ao rio Tejo no aprazível termo de Belém na parte ocidental da cidade de Lisboa, na qual se integrava um conjunto de casas nobres, o Palácio de Belém e um Picadeiro.

Em 1786 foi mandado destruir o antigo picadeiro para, em sua substituição, ser construído o actual, obra da iniciativa do infante D. João, futuro rei D. João VI, filho da rainha D. Maria I e de D. Pedro III, grande entusiasta pela Arte Equestre.

Do projecto, em estilo neoclássico, atribuído ao arquitecto italiano Giacomo Azzolini, é de salientar o amplo salão com 50 m de comprimento por 17 m de largo, com dois pisos, apresentando, nos topos do andar superior, tribunas ligadas por duas estreitas galerias com colunata, destinadas a permitir à Família Real e à Corte assistirem aos jogos equestres.

As obras de construção do Picadeiro Real tiveram início em 1787 e muito embora a estrutura do edifício ficasse pronta um ano depois, as decorações exteriores e interiores prolongaram-se até cerca de 1828.

  

 

 

 

 

Em 1791 Francisco José da Costa fornecia os painéis de azulejo que decoravam as tribunas e em 1793 estava colocada a balaustrada interior que envolve o salão, obra do entalhador Gonçalo José.
Entre 1792 e 1799 participaram na decoração dos interiores, entre outros, os pintores Francisco de Setúbal, Francisco José de Oliveira, Joaquim José Lopes dito "o Bugre" e o francês Nicolau Delerive.

Nos motivos decorativos utilizados em toda a decoração do tecto e painéis nos topos do salão, predominam elementos ligados à arte equestre. Destacam-se no tecto do picadeiro em tela pintada, três grandes medalhões ovais com cenas alegóricas.

No primeiro está representada a figura de um cavaleiro símbolo de Portugal ladeado por quatro figuras femininas que simbolizam os Continentes, facilmente identificados pelo animal que as acompanha, respectivamente o cavalo para a Europa, o camelo para a Ásia, o crocodilo para a África e a arara para a América.

No medalhão central uma figura feminina coroada segura a cornucópia da Abundância simbolizando a Paz e Prosperidade do Reino.

No terceiro medalhão a alegoria da Guerra é sugerida pela figura armada de lança, escudo e elmo que segue numa quadriga puxada por leões e ladeada pela figura feminina da Vitória.

Em 1904, quando da adaptação do picadeiro a museu realizaram-se obras sob orientação de Rosendo Carvalheira, arquitecto dos Palácios Reais, sendo as pinturas então restauradas pelos pintores José Malhoa e António Conceição e Silva.

Mais tarde, em 1940, nova campanha de obras orientada pelo arquitecto Raul Lino vai permitir a ampliação da área de exposição com a construção de um novo salão lateral.

Secção de acessórios equestres e de tauromaquia

 

 

Folheto do “Museu Nacional dos Coches” em 2014

Vista exterior do “Museu Nacional dos Coches” em 2014

Bibliografia: site oficial do Museu Nacional dos Coches

fotos in: Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian (Estúdio Mário Novais), Museu Nacional dos Coches, Arquivo Municipal de Lisboa